sexta-feira , 10 abril 2026
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Efeito guerra chega ao IPCA em março, e projeção do ano já vai acima do teto da meta


A inflação oficial do país teve alta de 0,88% em março, acima das expectativas do mercado, confirmando que o efeito da guerra já afeta os preços locais, especialmente em transportes e alimentos. Segundo economistas e analistas, o resultado evidencia que a pressão inflacionária seguirá nos holofotes do Comitê de Política Monetária (Copom), que deve optar por cortes amenos na taxa de juros, podendo pausar o ciclo antes do esperado.

Os dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foram divulgados nesta sexta-feira (10) pelo IBGE, acumulando alta de 4,14% em 12 meses. O percentual já se aproxima do teto da meta, que é de 4,5%.

Leia também: Cessar-fogo pode estabilizar inflação e juros no Brasil? Bancos e corretoras avaliam

Período Taxa
mar./26 0,88%
fev./26 0,70%
mar./25 0,56%
Acumulado ano 1,92%
Acumulado 12 meses 4,14%
Fonte: IBGE

Transporte e Alimentos em alta

O grupo transporte teve a maior alta do mês, de 1,64%, enquanto alimentação e bebidas subiu 1,56%. Juntos, os indicadores representam 76% do IPCA de março.

Em transportes, a escalada nos combustíveis foi o fator preponderante, com avanço de 4,47%. A gasolina — que havia caído 0,61% em fevereiro — subiu 4,59% em março. Já o óleo diesel saltou de uma variação de 0,23% para 13,9%. O etanol subiu 0,93% e o gás veicular recuou 0,98%.

Segundo Alexandre Maluf, economista da XP, os dados já refletem um “efeito bem claro da guerra”, com pressões que não se limitam à geopolítica: “Temos altas relevantes também na parte de alimentação” , grupo que havia se comportado bem no ano passado, mas que agora acelerou de forma significativa.

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Grupo Fevereiro (%) Março (%)
Índice Geral 0,7 0,88
Alimentação e bebidas 0,26 1,56
Habitação 0,3 0,22
Artigos de residência 0,13 0,51
Vestuário 0,16 0,46
Transportes 0,74 1,64
Saúde e cuidados pessoais 0,59 0,42
Despesas pessoais 0,33 0,65
Educação 5,21 0,02
Comunicação 0,15 0,19
Fonte: IBGE

O subitem alimentação em domicílio subiu 1,94%, puxado por tomate (20,31%), cebola (17,25%), batata-inglesa (12,17%) e leite longa vida (11,74%). Fora do domicílio, o avanço foi de 0,61%, com aumento de 0,89% em lanche e de 0,49% em refeição.

Lógica invertida: março é início de sazonalidade baixa, mas inflação subiu

Para José Faria Júnior, economista da Wagner Invest (WIA), o dado chama a atenção porque março marca o início da sazonalidade de baixa da inflação, mas os reflexos do conflito no Irã inverteram essa lógica. 

“A inflação veio mais forte do que o esperado e mostra que energia e alimentos seguem pressionando os preços, já sob influência do cenário global. Não é uma crise inflacionária, mas é um sinal de alerta”, acrescenta Pablo Spyer, conselheiro da ANCORD.

Efeito secundário de alta

O mercado teme, agora, os efeitos secundários dessa alta. “O IPCA de março reforça a escalada dos combustíveis e aumenta o risco de efeitos indiretos sobre os demais grupos nos próximos meses, especialmente por meio do custo do frete”, avalia Gabriel Pestana, economista sênior da Genial Investimentos.

Esse movimento já é capturado nas análises do ASA. “O dado de março reforça que temos sido surpreendidos pela inflação no curto prazo. Parte desse movimento já reflete efeitos do cenário externo, mais evidentes em combustíveis e começando a aparecer, ainda que de forma incipiente, em alimentos (via aumento do frete). Ao mesmo tempo, chama atenção a resiliência dos núcleos de serviços, que seguem operando em patamar elevado no 1T26”, afirma Leonardo Costa, economista da casa.

A esperança no curto prazo recai sobre a geopolítica. “Com o cessar-fogo de duas semanas, a chance de uma contaminação do restante da inflação pelo choque do petróleo diminui. Mesmo alcançado sob bases frágeis, esperamos que ele persista, tendo em vista que os Estados Unidos não parecem ter muita opção para escalonar o conflito”, projeta André Valério, economista sênior do Inter.

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Pressão inflacionária ganha força

Os vetores atuais indicam que a inflação de 2026 deve fechar acima das expectativas traçadas antes do conflito, o que pode impactar a avaliação do governo em pleno ano eleitoral, destaca Faria Júnior, da WIA.

Para a economista do C6 Bank, Claudia Moreno, os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre petróleo e fertilizantes dificultam a tarefa do Banco Central. Ela destaca que os preços de serviços subjacentes (que excluem itens mais voláteis) também seguem pressionados, com alta de 5,3% em 12 meses. “Essa diferença entre o índice cheio e seus núcleos ajuda a explicar por que o processo de convergência da inflação à meta continua sendo uma tarefa difícil”, afirma. O C6 projeta que o IPCA encerre o ano em 4,8%, acima do teto da meta.

A XP também ajustou suas expectativas. Para Alexandre Maluf, o cenário global se tornou bastante desafiador para os bancos centrais. “A probabilidade de um IPCA acima de 5% subiu consideravelmente”, afirma o economista. Ele pondera que, com os níveis atuais de petróleo e taxa de câmbio, esse cenário de rompimento dos 5% “é o mais provável”.

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Revisão de cenários

Instituições que tinham visões mais otimistas estão refazendo contas. No ASA, a projeção que já está em 4,6% deve ser revisada para cima. A AZ Quest também deve elevar sua estimativa atual de 4,5% (que era de 3,60% antes do conflito). No Daycoval, o economista Julio Barros afirma que o conflito somado à possibilidade de um El Niño no segundo semestre reforçam o viés de alta para a projeção de 4,2%.

“Os vetores que puxaram agora a inflação não são temporários. Os alimentos sofrem com a cadeia de oferta, clima e repasses. Já os transportes ficam sensíveis aos combustíveis e ao câmbio”, alerta Josias Bento, especialista em investimentos e sócio da GT Capital. “No curto prazo, teremos uma inflação ainda pressionada. Para melhorar no médio prazo, precisamos de um arrefecimento claro na demanda ou queda de commodities.”

Espaço menor para cortes da Selic

Diante de índices e núcleos pressionados, a percepção unânime é de que a margem de manobra do Copom encolheu.

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“O mercado hoje eleva as chances de corte de apenas 0,25% na próxima reunião e, na nossa opinião, as chances de pausa no ciclo de corte são grandes”, avalia Faria Júnior, da WIA.

Para Moreno, do C6, como o Copom já havia sinalizado que o ritmo de afrouxamento estaria condicionado à evolução do conflito, há espaço para um corte moderado de 0,25 ponto percentual no final do mês, levando os juros para 14,5%. A estimativa do banco é de uma Selic terminal de 13,5% no ano.

A XP compartilha da mesma visão para o fim do ciclo. “A gente não acredita que deva mudar o plano de voo do Banco Central, pelo menos por ora” , aponta Maluf, que prevê a Selic a 13,5% ao final deste ano. O economista ressalta que “é um cenário pior para juros aqui no Brasil e no mundo”.

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Apesar do cessar-fogo no Oriente Médio, Valério, do Inter, avalia que o alívio não será suficiente para dar tranquilidade total ao Copom, embora a manutenção dos cortes de 0,25 p.p. seja o caminho natural. “O elevado aperto monetário, além do comportamento do câmbio, que tem operado consistentemente abaixo de R$ 5,10, dá tranquilidade suficiente para o Copom manter o ritmo”, diz.

Para Lucas Barbosa, economista da AZ Quest, o ritmo mais lento deve ser mantido até que o choque de curto prazo dos combustíveis se acomode e o Banco Central tenha maior convicção de que não haverá repasses generalizados para os demais bens e serviços da economia.



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