O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, apresentou nesta quarta-feira (3) uma hipótese para explicar um fenômeno que tem desconcertado analistas: o real se valorizando num momento em que a aversão a risco global deveria fortalecer o dólar e a bolsa brasileira registra saída de capital estrangeiro em direção à tese de inteligência artificial.
Em maio, o saldo líquido dos investidores estrangeiros na B3 ficou negativo em R$ 13,28 bilhões, o maior volume de retirada em mais de cinco anos, num movimento de realocação de capital em direção aos Estados Unidos. Apesar disso, o dólar se manteve no patamar de cerca de R$ 5, o menor desde março de 2024.
A hipótese passa pelo comportamento dos investidores estrangeiros. “Fazer hedge contra o dólar, como é desvalorização do dólar, é algo que faz sentido para o investidor americano. Eles querem se proteger de que essa rentabilidade [dos investimentos em IA] não seja parcialmente corroída pela desvalorização do dólar na conversão para o mercado doméstico”, afirmou o presidente do BC durante participação no Fórum de Lisboa. “Esse hedge matematicamente é o equivalente a você estar vendido em dólar, inclusive pró desvalorização do dólar.”
Galípolo comentou ainda que a curva de juros americana se mantém “comportada” por conta da expectativa de ganho de produtividade com IA. E, como é muito profundo, o mercado de títulos americano fica imune por ora à desvalorização do dólar, apesar dos choques geopolíticos. Já no câmbio, que não tem a mesma amplitude, as posições contra o dólar, que favorecem o real, são sentidas mais facilmente.
Ele alertou, no entanto, que o Brasil precisa se conectar às cadeias de IA para colher frutos de longo prazo. “No médio prazo, eu acho que o Brasil ainda não está ligado com a cadeia de valor global de IA. Esse benefício é futuro”, disse.

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