terça-feira , 14 abril 2026
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Goldman Sachs eleva projeção da taxa de juros no Brasil; entenda


O prolongamento da crise no Oriente Médio e a interrupção quase total dos fluxos de petróleo pelo Estreito de Ormuz forçaram uma revisão profunda no cenário macroeconômico para 2026. 

Em relatório divulgado nesta quarta-feira (25), a equipe de Commodities do Goldman Sachs projeta o valor do petróleo Brent médio de US$ 85 no ano, mas reforça que a persistência do conflito pode levar a commodity a superar o recorde histórico de 2008. 

Segundo o documento, esse choque energético atua como um “imposto global”, combinando uma inflação resistente com um aperto forte nas condições financeiras, o que classificaria uma diminuição de crescimento da América Latina.

Inflação revisada

Mesmo com a distância geográfica do conflito, a América Latina vai sentir o “efeito cascata” do choque energético. O Goldman Sachs aumentou a previsão de inflação para a região de 6,6% para 7,6% em 2026. 

De acordo com o documento, os analistas do GS dizem que o risco para os preços ao consumidor está se ampliando para além dos combustíveis. As commodities energéticas são insumos imprescindíveis para transporte e geração de energia, o que tem impacto direto nos custos de manufatura.

Um ponto crítico destacado é a pressão vinda da China, onde a previsão de PPI (Índice de Preços ao Produtor) foi revisada para o território positivo, encerrando três anos de deflação que ajudavam a segurar os preços globais de bens. 

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Somado a isso, o aumento nos custos de fertilizantes (atrelados ao gás) e dos fretes e seguros internacionais adiciona pressão de alta nos preços dos alimentos e produtos importados em toda a América Latina.

Taxa de juros e bancos centrais

Quando se trata de política monetária, a expectativa é que os bancos centrais da América Latina tentem “ignorar” o choque de oferta inicial, mas a deterioração das expectativas de inflação e os efeitos secundários vão forçar ajustes.

Especificamente no Brasil, que acabou de ter seu primeiro corte na taxa básica de juros em anos, o cenário de inflação mais alta e expectativas crescentes levou o Goldman Sachs a revisar a taxa Selic para 12,75% ao final de 2026 (ante 12,50% anteriormente). 

Na visão dos analistas, a régua para o Copom elevar as taxas ou interromper bruscamente o ciclo de queda permanece alta, mas o banco agora projeta um caminho de flexibilização muito mais defensivo. 

Já no México, por exemplo, a postura também endureceu: o corte de juros previsto para junho foi adiado para setembro, acompanhando a sinalização do Federal Reserve (Fed) nos Estados Unidos. A Colômbia é citada como o caso mais grave, já imersa em um ciclo de aperto devido a pressões inflacionárias prévias ao choque.

Impacto no crescimento

A guerra no Irã apertou as condições financeiras globais. O Índice de Condições Financeiras (FCI), do Goldman Sachs, subiu cerca de 35 pontos-base desde o final de 2025. O banco estima que o choque atual vai subtrair 0,4 p.p. do crescimento do PIB global no caso base, podendo chegar a 1,2 p.p. em um cenário severamente adverso.

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Para a América Latina, a transmissão desse aperto não é uniforme. De acordo com o relatório, choques de petróleo costumam impulsionar a inflação na região e desencadear respostas mais rigorosas (hawkish) da política monetária: um aumento de 10% nos preços associa-se a uma inflação 0,3 p.p. maior e juros de curto prazo 0,1 p.p. mais altos.

No crescimento, o impacto varia conforme o perfil do país:

  • Sensibilidade ao FCI: Um aperto de 25 bps nas condições financeiras globais reduz o crescimento regional em 0,24 p.p. após um ano. O Brasil e o Equador mostram sensibilidade maior (queda de 0,3 p.p.), enquanto o Peru é menos afetado (declínio de 0,1 p.p.).
  • Brasil: Mesmo sendo um exportador líquido de petróleo, o crescimento para 2026 foi revisado para baixo, para 1,9%. De acordo com os analistas, isso reflete o ambiente de inflação mais alta, um caminho de flexibilização da taxa Selic mais defensivo e a alta sensibilidade do crescimento ao aperto financeiro.
  • México, Chile e Peru: As previsões foram cortadas para refletir o menor crescimento dos EUA e o “efeito riqueza negativo” por serem importadores líquidos de produtos petrolíferos. O México, especificamente, sentiu um aperto financeiro mais perceptível que o movimento global.
  • Equador: Foi o único com revisão para cima (+10 bps), beneficiado pela forte dependência das receitas de exportação de petróleo para equilibrar suas contas.

Veja a variação de todos os países da América Latina citados no relatório do Goldman Sachs:

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País Revisão de Crescimento (PIB 2026) Variação (bps/p.p.)
Brasil 1,9% -10 bps
Peru Não mencionado -40 bps
México Não mencionado -30 bps
Chile Não mencionado -30 bps
Equador Não mencionado +10 bps
Argentina Sem alteração 0 bps
LA7* (Média) 2,0% -10 bps

*Grupo formado por Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Equador

Política fiscal

Outro pilar central da análise é como os governos pretendem decidir sobre a distribuição do custo do petróleo mais caro. O GS afirma que as escolhas fiscais podem moldar a magnitude e a persistência do choque nos preços. 

No Chile e no Peru, a decisão foi de repassar o aumento aos consumidores via mecanismos de suavização, o que protege o balanço do governo mas gera inflação imediata mais forte.

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Já em países como Brasil, México e Colômbia, a tendência é o uso de subsídios diretos e desonerações. “O custo de subsídios diretos aos combustíveis e desoneração fiscal pesará sobre as contas fiscais ou limitará o ganho inesperado de receita nos cofres públicos”, afirma o relatório. 

O banco ainda reforça que, se o choque se intensificar para o cenário “severamente adverso”, os bancos centrais podem ser forçados a mudar o foco da inflação para o crescimento, utilizando intervenções cambiais e políticas comerciais para evitar um colapso maior da atividade econômica.

Dinâmica de preços 

A revisão do GS é baseada em um cenário de interrupção de seis semanas, seguido por uma recuperação gradual de um mês. Em seu caso base, o Brent deve atingir a média de US$ 85 em 2026 e US$ 80 em 2027. 

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Porém, o relatório entra em detalhes nos riscos assimétricos. “Interrupções mais longas poderiam empurrar o óleo bruto acima do recorde de 2008 e elevar a média do Brent para acima de US$ 100 em 2026 – chegando a US$ 115 em um cenário severamente adverso”, diz o documento.

Por outro lado, os analistas também têm a percepção que um fim antecipado das hostilidades militares poderia reduzir rapidamente o prêmio de risco. 

Além do preço imediato, os especialistas esperam que o armazenamento estratégico aumente globalmente em resposta aos riscos de produção concentrada, mantendo os preços pressionados em horizontes mais longos.



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